segunda-feira, 24 de março de 2014

[calor]
No quintal, por entre as ramas de trigo, a Mãe Que Nunca Tive tentava me ensinar a assoviar. Eu não conseguia. Depois de um tempo, cansada, ela desistia dizendo que iria acontecer um dia. Por mais que eu quisesse (e eu queria), não conseguia acreditar nela.

[alguns planetas depois]
Lembrei disso (daquilo) e me vi ouvindo aquelas mesmas palavras da minha mãe, deitada na cama depois de ouvi-la dizer, sem mais nem menos (falávamos sobre nuvens de átomos, poeira solar e espectros luminosos), que eu não sabia assoviar.

[vento nenhum agora]
Eu assoviando pela primeira vez.



[eu e a Filha Que Ainda Não Tive]
"E o que você fez?" Interrogou-me após ouvir toda história, "chamou a sua mãe pra ouvir?" Não consegui me lembrar (mesmo agora não me lembro), e ela — aborrecida — agitou-se, "ninguém aprende a assoviar depois de velho!" E riu.
E ficamos ali deitadas, até que ela pediu: "assovia alguma coisa, qualquer coisa!" Eu não consegui pensar em nada. A Filha Que Nunca Tive me beliscou e falou em meu ouvido, "aposto que inventaste toda a história. Aposto que não sabes assoviar."

[a conclusão de vidas inteiras]
"As pessoas do meu planeta não sabem assoviar."




Para Clara.
Feliz aniversário.

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